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Questes para uma Cincia do Homem 
SE PRETENDERMOS estudar e compreender o homem, precisaremos de um modelo humano. Isto soa como um trusmo e 
assim devia ser considerado; a coisa surpreendente  que no  um trusmo, em absoluto. Fico continuamente 
impressionado pela surpresa manifestada pelos nossos colegas cientficos de outras disciplinas, como a Fsica e a Biologia, 
quando nos vem tomando os nossos modelos no s de suas cincias mas, freqentemente, de formas obsoletas de suas 
cincias que eles j rejeitaram. E o mais provvel  que acrescentem um outro trusmo:  claro, vocs devem ter um 
modelo que provenha do nvel de complexidade daquilo que esto estudando, o ser humano. 
Esta carncia de um modelo adequado est relacionada com uma outra e curiosa situao. Isto , apesar de toda a discusso 
geral da psicoterapia e dos problemas emocionais do homem moderno em nossas revistas cientficas e na imprensa diria, 
ainda no possumos uma cincia operacional do homem em que possamos basear a psicoterapia. No pretendo oferecer, 
neste captulo, essa cincia inteiramente elaborada mas alimento a esperana mais modesta de que os comentrios seguintes 
ajudem a assinalar as questes bsicas e mais proveitosas. 
QUESTES PARA UMA CINCIA DO HOMEM 
Por cincia do homem no entendo, meramente, a reunio da Psicologia, Sociologia, Antropologia e demais disciplinas a 
que Dilthey chamou as cincias culturais, em contraste com, as cincias naturais. Sem dvida, essas cincias culturais 
tm muita importncia para uma compreenso adequada do homem. Mas entendo por cincia do homem algo diferente, a 
saber, uma teoria operacional que nos habilitar a compreender e esclarecer as caractersticas especficas que distinguem o 
homem. Se- tia a cincia em que poderamos basear a Psicoterapia. Se a fra5e ainda parece ambgua, como pode muito bem 
ser, espero que fique mais clara e mais precisa com o desenrolar destas consideraes. 
 a nossa falta dessa cincia que possibilita a grande confuso terica em tomo das finalidades da psicoterapia, hoje em dia. 
Ningum tem uma idia muito clara do que  este animal, o homem, que ns, os psicoterapeutas, estudamos e tentamos 
ajudar, ou mesmo em que consiste essa ajuda. Com efeito, existem sintomas de que a psicoterapia contempornea se 
encontra num dilema peculiar: no prprio momento em que ela se tornou mais generalizada e em que os recursos de 
adestramento so maiores, a sua confuso terica interna torna-se tambm mais evidente. H uma dzia de anos, para 
darmos um exemplo, a American Psychoaiw.IYtiC Association nomeou uma comisso para elaborar uma definio de 
Psicanlise. A comisso trabalhou diligentemente durante quatro anos, bombardeando 05 seus membros de questionrios. 
Mas o nico ponto em que pde haver concordncia foi de ordem tcnica: que a anlise era algo que deveria ser feita, pelo 
menos, quatro horas por semana! Finalmente, a comisso emitiu o seu parecer de que a incerteza terica era to grande que 
era impossvel chegar a uma definio de Psicanlise 
No ME PR0PONHO tentar enumerar ou avaliar aqui as muitas espcies diferentes de pesquisa atualmente em 
curso. Desejo apenas sublinhar que a pesquisa tende a seguir as diretrizes das cincias em que hipteses e 
mtodos claros j foram estabelecidos e para o que j existe equipamento laboratorial. O maior quinho de 
pesquisas relatadas em revistas psiquitricas ocupa-se da terapia somtica, de acordo com um estudo 
elaborado pelo Grupo para o Avano da Psiquiatria.  Em seguida, por ordem de des 
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taque, vm os estudos dos correlatos anatmicos, fisiolgicos e bioqumicos da doena psiquitrica. Neste 
ponto, a formao mdica do psiquiatra, com seus muitos anos de enfoque sobre a patologia dos rgos e 
tecidos, dita os interesses da pesquisa.  At uma data recente, o estudo da psicodinmica e da psicopatologia 
constitua apenas uma parte secundria da pesquisa psiquitrica. Embora exista uma tendncia corrente para 
tais estudos, eles tero de ser grandemente acelerados, indica esse relatrio, para ombrear com as pesquisas 
n,o campo das terapias somticas e dos correlatos somticos da doena psiquitrica. 
O progresso mais espetacular e de maior alcance no campo psiquitrico, nos ltimos tempos, corno todos 
sabem, teve lugar no desenvolvimento de drogas para controlar a ansiedade, as depresses e outras formas de 
perturbao emocional. Obviamente, essas drogas tm seu valor com os pacientes altamente perturbados, para 
proteg-los deles prprios, para aliviar sua ansiedade e depresso insuportvel, e para ajudar um nmero 
muito maior de pacientes a chegar a um estado em que sejam suscetveis de psicoterapia. 
Mas o prprio uso dessas drogas apenas coloca em maior destaque a necessidade de chegarmos a uma 
adequada cincia do homem. As razes para isso so as seguintes. As drogas para problemas emocionais 
agem segundo um princpio muito dif e- rente daquelas que destroem germes ou vrus invasores nas doenas 
orgnicas. Um certo nmero dessas drogas bloqueia os efeitos dolorosos do estado emocional mas no tem 
efeito algum sobre a sua causa; podem mudar as reaes do organismo mas no tocam no problema de saber, 
em primeiro lugar, por que as reaes so destorcidas. Um sedativo, por exemplo, pode ajudar uma pessoa a ter 
uma boa noite de sono mas nada faz a respeito do problema que impedia essa mesma pessoa de dormir. Pode 
ser valioso, apesar de tudo, para provocar o sono, particularmente se prepara a pessoa para atacar o problema 
de um modo mais eficaz na manh seguinte. Por outro lado, ingerir o soporfico pode ter ajudado a pessoa a 
evitar, precisamente, o seu problema; pode remover dela o motivo para dar algum passo adiante em seu 
desenvolvimento. Este simples exemplo poder elucidar o ponto nada simples de que, em geral,  nocivo para 
os pacientes remover os seus sintomas sem ajud-los a curar o problema subjacente que causa os sintomas. 
De modo geral, a funo dos sintomas  fornecer o incentivo e a direo mais indicada para se chegar  
perturbao subjacente. Psicologicamente a ansiedade e a depresso constituem um modo da natureza, se 
assim podemos dizer, anunciar  pessoa que ela tem um problema subjacente que requer um esforo de 
correo. 
Se essas drogas para distrbios psicolgicos e drogas para alterar o estado de nimo que esto sendo hoje 
aperfeioadas se tornarem largamente usadas, como certamente ser o caso nas prximas dcadas, sem uma 
ajuda equivalente das pessoas para que resolvam seus problemas,  muito provvel que testemunhemos o 
surgimento de novas espcies de distrbios psicolgicos e psicossomticos em nossa sociedade, em escalas 
ainda mais vastas do que atualmente. Se posso arriscar uma previso, tero destaque entre esses distrbios os 
estados endmicos de apatia e aquilo que designamos em outro trabalho como a experincia do vazio interno. 
Assim, essas drogas no tornam, em sentido nenhum, menos urgente a necessidade da nossa compreenso 
psicolgica do homem; com efeito, apenas se tornar mais crucial que superemos a nossa confuso sobre a 
natureza dessa criatura com que trabalhamos e cheguemos a uma cincia do homem que nos guie em nossas 
pesquisas no domnio da psicoterapia. 
O NOSSO MODELO para uma cincia do homem no pode ser tomado com armas e bagagens da Medicina. 
Obviamente, pensamentos muito confusos tm lugar entre s especialistas e os leigos inteligentes sobre a 
relao da Medicina com os problemas psiquitricos e psicolgicos. O ponto essencial que deve ser visto com 
clareza  que os distrbios psiquitricos (excluindo a minoria com uma base orgnica) e os problemas 
psicolgicos tm um carter diferente das doenas que os mtodos mdicos tm tratado com tanto xito 
durante as ltimas dcadas (por exemplo, o espetacular sucesso na profilaxia da poliomielite). Isto foi 
profundamente argumentado por Harry Stack Suilivan, 6 veementemente discutido por Thomas Szasz e  
meramente debatido por muitos outros. A essncia do mtodo mdico consiste em definir a entidade 
patolgica  a doena  depois isolar os organismos invasores. (germes, vrus) e desenvolver ou descobrir a 
droga ou vacina especfica que destruir esses organismos. Mas, 
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como o Dr. Stephen Ranson sublinhou acuradamente, enquanto que as 
doenas mdicas orgnicas so predominantemente classificveis em entidades patolgicas relativamente 
distintas.., isso parece ser inerentemente impossvel com o material da psiquiatria. Este ltimo parece 
consistir, pelo contrrio, em padres de reao ou padres de interao (padres de existncia) que mostram a 
maior variabilidade possvel... [A doena orgnica consiste em] padres de fenmenos aberrantes dentro dos 
indivduos. Por outro lado, os distrbios psiquitricos funcionais... referem-se  interao de indivduos com 
outros indivduos ou grupos... Em resumo, as doenas orgnicas e os distrbios psquicos parecem 
representar fenmenos que tm lugar em diferentes quadros de referncia. 
O Dr. Ranson conclui corretamente que  imperativa uma extensa reviso crtica da nossa estrutura terica 
bsica. Tambm  clara a implicao de que, como os distrbios ocorrem num novo nvel do raciocnio, isto , 
a interao entre indivduos e entre indivduos e grupos,  necessrio um novo quadro cientfico de referncia, 
em vez de uma simples ampliao da cincia biolgica ou fsica. 
Ainda mais impressionante  a necessidade de um novo nvel do raciocnio quando passamos dos distrbios 
psiquitricos (como as psicoses) para os problemas emocionais e psicolgicos (tipicamente, as dificuldades 
neurticas e de comportamento). Neste aspecto, a mais fascinante e esclarecedora revelao deve ser 
observada nas lutas travadas durante a longa peregrinao de Freud para descobrir mtodos pelos quais 
pudesse explorar adequadamente a vida psquica humana. Essas lutas so descritas na carta que ele 
escreveu ao seu amigo Fliess, durante aqueles primeiros e solitrios anos de pesquisa, quando praticamente 
ningum entendia ou apoiava o seu trabalho. Freud,  claro, treinado como mdico e neurologista, explicava 
repetidamente a Fliess, um fisiologista, os seus esforos para interpretar a histeria e outros problemas 
psicolgicos em termos neurolgicos e orgnicos. Mas de cada vez que o tentava sofria um novo 
desapontamento e via-se forado a avanar para um novo nvel, a fim de encontrar suas explicaes. Num 
pungente trecho escrito em agosto de 1897, ele conta ao seu amigo como as suas grandes esperanas de 
atingir a fama atravs das suas teorias sobre a histeria tinham sido desfeitas e jogadas por terra; e ento 
acrescenta: No desmoronamento geral, somente a psicologia reteve o seu valor. Pede at a Fliess, 
queixosamente e talvez um pouco irnico, que lhe fornea alguma base slida em que eu seja capaz de 
renunciar a explicar as coisas psicologicamente e comece descobrindo alicerces firmes na fisiologia! 
Freud era um verdadeiro explorador,  medida que avanava onde quer que os dados o levassem, mesmo que 
isso significasse a laboriosa escalada de montanhas para alcanar novas cordilheiras onde os velhos mapas e 
mtodos j no serviam. Nesse sentido, ele tinha o esprito do filsofo, tanto quanto o do cientista. Quando 
eu era moo, escreveu a Fliess, a nica coisa que eu ambicionava era o conhecimento filosfico e, agora, que 
estou passando da medicina para a psicologia, estou prestes a realizar essa ambio. De fato, Freud teve, 
finalmente, de romper com Fliess porque o fisiologista tinha a idia firme de estabelecer a Biologia numa 
frmula fsica, matemtica, mas Freud sabia que as verdades por ele procuradas teriam de ser explicadas em 
um novo nvel de integrao. Como Ernest Jones diz em sua biografia de Freud, Sabemos que o estudo 
mdico das aflies fsicas do homem no o colocou mais perto e talvez tenha at impedido o seu progresso. 
Contudo, que tenha finalmente alcanado a sua meta, embora atravs de uma extraordinria estrada de 
contorno, acabou sendo por ele considerado, legitimamente, o grande triunfo de sua vida. 
Na cincia do homem, os dados mdicos e biolgicos certamente se revestem de um alto significado. 
Entretanto, desejo apenas enfatizar que ns, como Freud, defrontamo-nos com algo novo sob a roda do sol da 
cincia moderna. 
A confuso sobre o homem,  claro, no  culpa dos psicanalistas. psiquiatras ou psiclogos mas corta, como 
uma fissura, toda a nossa cultura. Veremos com maior clareza sobre o que estamos falando se, por um 
momento, relancearmos a Histria para obter uma perspectiva histrica, O gnio do homem moderno, desde o 
Renascimento, manifestou-se na compreenso e domnio da natureza fsica. Os mtodos para esse novo 
controle da natureza foram formulados por numerosos filsofos e cientistas do sculo XVII; vejamos a 
formulao clara de Descartes. Ele sustentou, no Discurso do Mtodo, que a realidade tem dois lados: num 
lado  matria, aquilo que pode ser medido, que  objetivo e tem extenso  quer dizer, a natureza fsica, 
incluindo o corpo humano. No outro lado est o pensamento, o esprito, aquilo que  subjetivo e no pode ser 
medido. Descartes e os outros filsofos e cientistas do sculo XVII no pretendiam com isso dividir o mundo 
em dois. A idia que formavam da Razo era a que Paul Tillich chama exttica; eles no eram dualistas. Com 
efeito, Descartes tentou abranger o corpo e o esprito ao sustentar que eles esto ligados pela alma, a qual 
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reside na glndula pineal, situada na base do crebro. Ora, ns sabemos onde est a glndula pineal. Mas foi 
obviamente difcil para os investigadores encontrar a alma a residente. Descartes cometeu o erro tipicamente 
moderno de tentar definir a alma como uma coisa, uma entidade. 
O resultado dessa dicotomia foi que o homem moderno entregou-se ento  explorao de um lado  a saber, a 
natureza que podia ser medida. O mtodo tornava agora possvel colocar uma certa distncia entre a natureza e 
o homem, e estudar a natureza como objetivo, como algo ali fora. Esta abordagem obteve um tremendo xito 
na Fsica e na Qumica, ulteriormente na Biologia e na Medicina. Compreensivelmente, as cincias que melhor 
se ajustavam aos novos mtodos matemticos foram as que realizaram maior progresso. Tambm  
compreensvel que esses mtodos, to estupendamente compensadores nas cincias naturais, fossem 
aplicados ao homem; os aspectos da experincia humana que pareciam ser racionais e tangveis e podiam ser 
medidos foram destacados para estudo mas os problemas subjetivos  valores, conscincia, liberdade, 
responsabilidade  foram postos na prateleira como imerecedores de estudo ou francamente rejeitados. Em 
meados do sculo XIX, essa diviso entre os aspectos objetivos e subjetivos da vida tinha-se aprofundado de 
modo a constituir uma verdadeira brecha na cultura, como um todo, assim como nos indivduos dentro da 
cultura. No final do sculo XIX, os indivduos sofreram uma compartimentao psicolgica  que foi, 
precisamente, o distrbio que Freud procurou curar em seu desenvolvimento da psicanlise. Na sua mais 
simples forma, a psicanlise  um mtodo para repor o irracional e o racional, o objeto e o sujeito, em 
unidade, um mtodo para fazer novamente do homem um todo. 
Hoje, sabemos muito sobre a qumica do corpo e o controle das doenas fsicas; mas sabemos pouqussimo 
sobre os motivos por que as pessoas odeiam, por que no podem amar, por que sofrem de ansiedade e culpa, e 
por que se destroem mutuamente. Contudo, enquanto permanecemos sob a aziaga sombra da bomba-li, 
tornamo-nos profundamente cnscios de que pode haver tremendos perigos num estudo cientificamente 
unilateral da natureza e do homem. 
Com efeito,  dada tanta nfase ao lado objetivo da dicotomia de Descartes em nossa sociedade que a 
tendncia  para supor ser essa a nica abordagem. Na minha opinio, o Dr. William Hunt comete esse erro 
quando afirma numa de suas conferncias Salmon: A psiquiatria, e a psicologia como sua parceira, tm sido, 
nos ltimos vinte anos, espalhafatosente psicodinmicas, negligenciando e, por vezes, quase excluindo o 
aspecto orgnico, fisiolgico, do quadro. O pndulo ter de efetuar seu percurso para o lado oposto e existem 
provas de que esse movimento j comeou. Isto parece ser, em minha opinio, uma leitura mope da Histria, 
O Dr. Hunt est certo, sem dvida, se pretende argumentar contra a psicologizao superficial que ocorreu 
num passado recente. Em alguns crculos de Greenwich Village e Park Avenue, era impossvel ficar at cansado 
sem que algum nos acusasse de tentarmos fugir s responsabilidades ou de albergarmos um ressentimento 
reprimido contra a nossa sogra. Certamente, quanto mais depressa liquidarmos esse tipo de psicologizao, 
melhor para todos. Ponhamos de lado, por um momento, os aspectos orgnicos da realidade e da experincia; 
como diria Kierkegaard, a natureza ainda  natureza e, acrescento eu, o cansao ainda  cansao. Mas isso no 
altera o fato de que a nossa nfase tem recado preponderantemente, nos tempos modernos, sobre o lado 
orgnico; sabemos muita coisa sobre os aspectos fisiolgicos do comportamento das pessoas mas somos 
ainda ignorantes, em grande parte, no tocante aos seus motivos psicolgicos, sociais e espirituais. O nosso 
problema  se podemos superar a diviso entre corpo e mente para lidar diretamente com o homem, em funo 
das caractersticas que o distinguem como homem. 
A nova nfase sobre a relao do homem com a natureza e sua sucesso contnua com os animais, que 
caracterizou a f ilosofia e a cincia americanas, incluindo a Psicologia, durante o ltimo meio sculo, foi vlida 
em sua meta. Certo, havamos rompido excessivamente com a natureza. Mas eu creio, precisamente, que a razo 
para essa separao entre homem e natureza foi a dicotomia que estamos discutindo: a tendncia para situar a 
natureza e os animais como puramente objetivos, ali fora. Ora,  evidente que a nossa relao com a natureza 
e os organismos infra-humanos no pode ser adequadamente restabelecida por uma nova supernfase sobre 
um lado da dicotomia. Alm disso, todo e qualquer ser deve se relacionar com outros seres na base de suas 
prprias caractersticas inatas. 
Como soluo para este problema, muitos dos nossos colegas argumentam, energicamente, que podemos 
evitar toda a dificuldade desde que- nos ocupemos to-s do comportamento.  esse o modelo lockiano  
sendo as psicologias behavioristas o que Allport chama as formas lockianas de psicologia dominan 
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tes na Inglaterra e nos Estados Unidos. De modo geral, o behaviorismo evita a dicotomia cartesiana mediante uma 
redobrada nfase sobre um lado dela. Mas o simples fato, que vemos demonstrado a todo momento na psicoterapia,  que 
as pessoas reagem a uma experincia ntima de seu meio. 
Quando o Sr. A. entra no meu gabinete, por exemplo, eu devo ser sensvel a todos os aspectos do seu comportamento 
 seu olhar tenso, seu sorriso esquivo, seus movimentos ansiosos, o fato dele sentar-se numa postura excessivamente 
descontrada, de acender um cigarro mas s puxar dois ou trs breves tragos. Tudo isto so dados, assim como o que ele me 
conta a respeito dos seus problemas. Mas os seus sonhos e fantasias tambm so dados. Eu tambm devo estar cnscio de 
como me sinto nesse momento, pois fao parte do seu mundo, aquele mundo com que estou agora tentando comunicar. 
Como disse Niels Bohr, at o fsico moderno deve estar cnscio de que, como cientista, tanto  ator como espectador; e, 
como terapeuta, eu sou o instrumento por meio do qual o Sr. A. comunica com o mundo, nesse particular momento. Todos 
estes dados e centenas de outros so significativos. Para ns, terapeutas, o principal bice do behaviorismo  que, em 
poucas palavras, deixa de fora muito comportamento. 
Quando Bohr, Heisenberg e outros fsicos sublinham que a concepo copernicana de que a natureza pode ser separada do 
homem j no  sustentvel e que o ideal de uma cincia completamente independente do homem (isto , objetiva)  uma 
iluso,  o principal impacto sobre ns, psiclogos, deveria ser 
o de uma libertao, creio eu. Deveramos perceber, corajosa- mente, que temos seguido concepes demasiado estreitas da 
cincia. Por exemplo, o mtodo de medio matemtica quantitativa como ideal para a cincia  uma inveno peculiarmente 
moderna, devendo muito  introduo dos numerais rabes na Europa, nos finais da Idade Mdia. A finalidade bsica da 
cincia, desde o tempo dos gregos at hoje, foi a descoberta da legitimidade da realidade. Essa legitimidade pode ser 
demonstrada por outros mtodos, alm da quantificao. A coeso interna  um de tais mtodos; a descoberta de padres  
outro. 
Uma outra deficincia do behaviorismo como modelo para uma cincia do homem  que no leva suficientemente em 
considerao que o homem  o mamfero que pode conscientizar que est sendo condicionado. Quando o ser humano no 
est meramente entregando-se s condies arbitrrias do laboratrio, ou no est inconsciente, ou sob o efeito de drogas ou 
hipnose, ele pode saber que est sendo condicionado e, nesse momento, pode fazer uma pausa entre o estmulo e a 
resposta. Essa pausa, ainda que seja apenas por um instante, habilita-o a exercer certa influncia no sentido de uma 
resposta ou outra. Assim, no  exato falar do ser humano como sendo unicamente 
o produto do condicionamento. O behaviorismo e outras formas de psicologia experimental e laboratorial tm, 
reconhecida- mente, seus papis significativos e teis mas que tm de ser colocados num contexto mais amplo da natureza 
do homem e da cincia. 
O QUE QUE significa ter um problema emocional ou mental? Especificamente, qual  o locus dos problemas 
emocionais? Se perscrutarmos a nossa prpria experincia, veremos imediatamente que uma nova categoria se faz 
necessria; os termos usuais, corpo e mente, no so suficientes.  popularmente suposto que o corpo afeta a mente e 
a mente o corpo; e se juntarmos os dois temos a pessoa. Mas isso no  a histria completa nem mesmo o ncleo central da 
histria. Digamos, para dar um exemplo, que estamos corporalmente fatigados. Ora, de que forma isso afetar a nossa 
mente depende, no da prpria fadiga mas, antes, de como eu, em minha autoconscincia, me relaciono com a fadiga. Se 
posso aceitar o cansao  digamos, causado por esquiar ou nadar  ele ser agradvel. Se.  porm, a fadiga resulta de 
executar uma tarefa de que no gosto 
e luto contra aquela, o mais provvel  que eu sinta irritao. Se, em terceiro lugar, no posso sequer admitir intimamente o 
meu estado de fadiga fsica mas tenho de reprimi-la, o efeito ser ainda diferente:  provvel que me ponha a trabalhar 
compulsivamente, em arrancos artificiais mas improdutivos. Aqui temos um simples estado corporal, a fadiga, que tem trs 
efeitos muito diferentes, dependendo de como eu, em minha autoconscincia, me relaciono com ela. 
Voltemos a falar agora de um chamado estado mental ou emocional, a ansiedade, e vejamos como ele afeta o corpo. Se 
pudermos aceitar a ansiedade, no nos far qualquer dano especial e poder ser at uma oportunidade educativa para ns. 
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Contudo, se a ressentirmos e lutarmos contra ela, a ansiedade ter um outro efeito; 6 provvel que fiquemos 
deprimidos, cansados. Se, em terceiro lugar, no pudermos aceit-la mas recorremos  represso, nesse caso a 
ansiedade poder acarretar, realmente, efeitos psicossomticos nocivos, como uma crise aguda em nossas 
lceras. Em cada caso, vemos que no se trata apenas do corpo afetar a mente ou a mente afetar o corpo; 
antes a questo crucial  esta: Como  que a pessoa, em sua autoconscincia, se relaciona com o corpo e a 
mente? A categoria decisiva  o eu em sua relao com o ele mesmo. 
Que nome daremos a isso? Autoconscincia? Individuao? Bem, alguns dos nossos colegas psiclogos j 
estaro preocupados nesta altura dos acontecimentos: isso cheira demais  velha idia de alma. E recordar-
nos-o: S pudemos estabelecer a psicologia como cincia quando nos livramos disso.  por esse motivo, 
evidentemente, que muitos psiclogos da tradio behaviorista rejeitaram tambm o termo eu. Sustentam 
eles que tais idias so usadas cm petio de principio: Diz-se que algum faz alguma coisa porque o seu eu 
ou a sua alma levou essa pessoa a faz-lo. Eles esto certos a respeito de que essa petio de princpio no 
, obviamente, boa cincia  nem boa filosofia ou religio, acrescentaria eu. Contudo, eu sempre tive a suspeita 
de que se tratava de uma cincia defensiva que evitava os problemas excluindo-os; e que estaria muito mais de 
acordo com o esprito cientfico tentar estudar o significado funcional dos conceitos de alma e eu atravs 
da Histria. Aristteles entendia por alma o princpio ativo e racional n homem; e ele no era tolo. Creio que 
Descartes, com a sua moderna e crua distoro de conceber a alma como uma coisa localizada num ponto em 
que a cabea se encontra com o corpo, estava realmente tentando, no interessa se de um modo insatisfatrio, 
descrever a capacidade pela qual uma pessoa  capaz de estar cnscia, ao mesmo tempo, do corpo e da mente. 
Um dos aspectos da coragem de Freud foi que ele usou francamente o termo psique e no hesitou ao faz-lo. 
Eu no estou propondo qualquer dos conceitos acima como solues, mas acho que devemos superar o nosso 
medo dos fantasmas intelectuais, se quisermos chegar a alguma parte. Temos de vencer a nossa iluso de que 
as coisas tm de ser concretas para ser reais ou de que s 
o quantificvel  verdadeiro, se quisermos realizar algum progresso na compreenso do homem e seus 
problemas. 
PROPONHO-ME agora sumariar alguns elementos essenciais a uma cincia do homem. Toda e qualquer cincia 
deve ser aplicvel s caractersticas peculiares e distintas do sujeito a ser estudado, o qual, no nosso caso,  o 
ser humano. Comearemos, ento, por perguntar: Quais so as caractersticas distintas do mamfero homem? 
Primeiro, observamos que o homem  o mamfero que fala, que usa smbolos como sua linguagem. Um 
chimpanz, mesmo que seja criado juntamente com seres humanos, no aprende a falar. A aptido do homem 
para usar a linguagem baseia-se na sua capacidade para lidar simbolicamente com a realidade  o que significa, 
simplesmente, um modo de libertar algo daquilo que realmente , como os dois sons que formam a palavra 
mesa, e concordamos entre ns que esses dois sons representaro toda uma classe de coisas. Assim, o ser 
humano pode pensar e comunicar em abstraes tais como Belo, Cincia, Razo e Bondade. Isto 
pressupe a capacidade de relacionamento com mais do que a situao concreta, dada e imediata, e de tratar 
em termos universais. 
Uma outra caracterstica que observamos  que o mamfero homem registra o tempo.  a simples mas 
maravilhosa capacidade de situar-se fora do presente e imaginar o nosso prprio eu de volta a ontem ou 
adiantando-se para depois de amanh. Uma ovelha s pode registrar a passagem do tempo e fazer planos para 
o futuro, como disse Howard Liddell, por cerca de dez minutos e um co por cerca de meia hora. Mas o 
homem  um animal que aglutina o tempo: ele pode trazer um passado de centenas de anos at o presente e 
usar o passado e o presente no planejamento do futuro distante. Alguns estudiosos da natureza humana 
sustentam que essa capacidade de aglutinar o tempo  a essncia da mente e da personalidade, 
indistintamente (Mowrer, Korzybski). No faz sentido,  claro, dizer que, como a ovelha pode fazer planos 
para dez minutos e o homem para quinhentos anos, o homem tem, simplesmente, uma capacidade 26,280.000 
vezes maior do que a ovelha. obviamente, uma questo de diferena em quantidade  tambm uma diferena em 
qualidade. A principal indicao da capacidade do homem para transcender o imediato est na sua aptido 
para planejar alm da sua prpria morte: ele pode ver o mundo como se estivesse nele ou no estivesse nele. 
 por isso que o ser humano  o mamfero peculiarmente histrico: ele no , meramente, empurrado pela sua 
histria, como todos os mamferos, mas pode conscientizar o fato de ser impelido e, assim, pode selecionar 
aqueles aspectos da histria em que deseja especialmente participar e que exeram maior influncia em seu 
desenvolvimento. Alm disso, est a a raiz 
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da sua capacidade de influenciar, por muito pouco que seja, a marcha da histria em sua nao e sociedade, como um todo. 
Uma outra caracterstica que observamos no sujeito  nossa frente  a sua capacidade peculiar para a interao social com 
os seus semelhantes. O leitor poder dizer: Isso no  caso nico: muitos organismos so sociais. Olhe as colnias de 
formigas e os rebanhos de carneiros. Certo. Mas as colnias de formigas, apesar de intrincadamente organizadas, no 
variaram em cinco mil anos. Eu devo a Howard Liddell a afirmao de que o chamado carter gregrio dos rebanhos de 
ovelhas e carneiros consiste apenas em manter constante o meio visual. Somente em dois perodos, o acasalamento e a 
amamentao, um ovino interatua com outro ovino em termos da sua natureza de ovinos; em outras alturas, o rebanho 
pode consistir em ces ou crianas, desde que seja constante. Mas o ser humano torna-se  ou, pelo menos, pode tornar-se 
 cnscio de seus relacionamentos interpessoais; ele abre-se  influncia de certas pessoas e mais ou menos rejeita outras. 
Assim, ele est apto, dentro de uma certa margem, a moldar e modificar os seus relacionamentos com os seus semelhantes; 
em sua autoconscincia, ele  parcialmente o autor da sua sociedade e quem lhe confere significado. Um grupo de animais 
individuais forma um rebanho; um grupo de seres humanos forma uma comunidade. 
Uma pausa agora para perguntar: Qual  o denominador comum desses trs exemplos que citamos? No primeiro captulo, 
identificamos isso como a capacidade do homem para transcender a situao imediata e concreta e para experimentar-se, ao 
mesmo tempo, como objeto e sujeito. No h nisto, em absoluto, uma inteno intelectualista ou desinteressada: o homem 
experimenta-se como objeto e sujeito, o que significa que ele se relaciona com ambos esses plos com sentimento, 
com algum juzo de valor e maior ou menor empenho. Ele pode pensar em si prprio como a pessoa que precisa atuar 
numa dada situao, assim como, ao mesmo tempo, ser essa pessoa. Enquanto l esta pgina, o leitor  o objeto de minhas 
palavras. Mas, ao mesmo tempo, pode estar cnscio de si prprio como a pessoa que l as palavras, isto , o sujeito. E, 
assim, tem uma certa margem de liberdade para decidir at que ponto concorda ou discorda. 
Essa capacidade nica de transcender a situao concreta tem, de acordo com o recm-falecido neurobiologista Kurt 
Goldstein, seu corolrio neurolgico. Sabe-se que o crtex frontal  a parte do crebro que, nos seres humanos,  muito 
grande mas minscula ou quase inexistente nos animais inferiores, Goldstein mostrou que, quando o crtex frontal do 
crebro sofre uma leso, os pacientes perdem, precisamente, as capacidades de que estivemos falando. Eles esto sempre 
ocupados com questes concretas, por exemplo, onde  que suas roupas esto guardadas; escrevem seus nomes, quando se 
lhes d uma folha de papel para esse fim, no mais ou menos no centro da folha mas nas bordas, onde os limites imediatos 
e concretos os orientam. So incapazes de transcender o imediato e o presente, indica Goldstein, e perdem 
progressivamente a capacidade de pensamento abstrato. 
Obviamente, a aptido do homem para ver-se, ao mesmo tempo, como sujeito e objeto, est muito prxima do que  
freqentemente designado por auto-relacionamento. Mas eu sugiro que, neste contexto, o auto-relacionamento implica a 
capacidade de relacionar-se tanto com o prprio eu como com outros eus. Deve ser radicalmente distinguido do 
egocentrismo. Sabemos, atravs da obra de Sullivan e outros, que a falta ou a distoro da conscientizao do eu bloqueia a 
possibilidade de conscientizao dos outros; e quanto mais ntida for a capacidade da pessoa para ver-se como sujeito, 
melhor poder ela conhecer outros eus. 
Alm disso, esse ser sujeito e objeto, ao mesmo tempo, sublinha a nossa conscientizao peculiar do mundo que nos cerca. 
Se a verdade fosse conhecida, seria essa a capacidade pela qual podemos ser cientistas em relao  natureza; isto , 
podemos pensar a natureza ali fora, podemos separar temporariamente sujeito e objeto e podemos pensar em leis 
abstratas e universais, a respeito da natureza. Com e$eito, o mais extremo behaviorista, que insiste em tratar a natureza e a 
natureza humana com pura objetividade e fica escandalizado com o conceito de eu, s  capaz de assumir a sua atitude 
objetiva em relao  natureza em virtude da sua prpria capacidade de auto-relacionamento. 
Neste ponto, precisamos sublinhar que a frase o homem em seu meio  inadequada. Todo e qualquer organismo tem um 
meio,  claro. Mas, entre os seres humanos e o seu meio, o relacionamento que ocorre tem caractersticas nicas. Como 
indicam as altamente sugestivas pesquisas sobre percepo e projeo, os homens observam e interatuam com o meio em 
funo de seus prprios smbolos e significados; e, para eles, urna parte do carter do meio depende desses smbolos e 
significados. 
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Quando nos damos conta de quanta projeo individual, tanto normal como destorcida, tem lugar, digamos, na 
relao de Jones com o seu meio, e de como esse meio est carregado de significados especiais para Jones, 
podemos ento perceber at que ponto  inexato falar do meio como se este pudesse ser descrito como algo 
distinto de Jones. Eu sinto, freqentemente, que os behavioristas e outros que pressupem um meio 
objetivamente real no consideram com suficiente seriedade o fato de que, logicamente (conforme foi 
demonstrado no s na filosofia mas tambm na fsica moderna), o seu pressuposto  um construto 
imaginativo, til para propsitos cientficos abstratos do momento mas destitudo de realidade intrnseca. 
Em qualquer dos casos,  por essa razo que, nestes captulos, falamos do eu como tendo um mundo, em vez 
de um meio. O auto-relacionamento pressupe a existncia de um mundo estruturado em relao com o eu; a 
forma especfica da categoria geral organismo-meio aplicada aos seres humanos  eu-mundo. 
Deparamo-nos agora com a questo seguinte: Em que  que o auto-relacionamento, essa capacidade de 
experimentar o prprio eu como sujeito e objeto, difere do que se chama autoconscincia? A autoconscincia  
o aspecto consciente, intelectual, do auto-relacionamento. Mas no  a sua totalidade. De fato, existe um 
perigo real, em algumas escolas de psicoterapia, de que o auto-relacionamento possa tornar-se excessivamente 
intelectual, demasiadamente verbalista, algo mais falado do que vivido.  preciso estar prevenido contra esse 
erro, tanto mais que alguns leitores podem interpretar a minha expresso transcender no sentido de viver 
numa torre de marfim, acima das realidades concretas do dia-a-dia, acomodados no novo ventre cientfico das 
beatificas abstraes. Isso  um completo mal-entendido. 
Com efeito, o auto-relacionamento inclui nveis subconscientes, assim como um conhecimento consciente. 
Quando nos entregamos ao amor, por exemplo, ou alguma outra forma de paixo, ou a uma luta, ou a um ideal, 
devemos estar, se formos bem sucedidos em nosso amor ou nossa luta, relacionados com o nosso eu em 
muitos e diferentes nveis, simultaneamente. Certo, o conhecimento consciente est presente em nosso 
empenho; mas tambm experimentamos, em ns prprios, poderes subconscientes e at inconscientes. Esse 
auto-relacionamento est presente no abandono que ns prprios escolhemos; significa atuar como um todo; 
 a experincia de Eu entreguei-me a isto. 
O termo tcnico para essa experincia de abandono  uma antiga palavra que proponho vermos agora num 
novo significado xtase. Uma palavra derivada de extasis, que significa literalmente estar fora de, xtase est presente 
em toda atividade criadora. O gnero oposto de abandono  o estado de pnico ou de fascnio. Tanto o xtase, num plo, 
como o pnico e o fascnio, no outro plo, envolvem atuar como uma pessoa toda; mas note-se pomo  grande a diferena! 
No pnico e no estado de fascnio, o auto-relacionamento est num mnimo: 
a pessoa atua s cegas, irracionalmente, sem livre escolha. E os jornais dizem: Ele agiu como um animal  o que  um 
lamentvel insulto aos nossos parentes infra-humanos. Mas o xtase no  irracional,  trans-racional. Qualquer pessoa que 
j tenha realmente amado, ou pintado, ou entrado seriamente numa luta, ou experimentado idias criadoras, sabe que o 
xtase acarreta uma conscientizao intensificada; temos idias que ignorvamos que tivssemos; a nossa viso 
aperfeioa-se, podemos ver mais arguta e claramente o que fazer; podemos variar as nossas aes; e um aguamento da 
razo e do julgamento jorra, por assim dizer, dos nveis subconscientes. O auto-relacionamento, tal como o ilustramos no 
xtase,  mais do que uma percepo consciente, intelectual. 
Isto leva-nos a um comentrio sobre o auto-relacionamento e o corpo. Quando Nietzsche disse: Ns pensamos com o 
nosso corpo, ele no significava com isso que o pensamento  um processo fisiolgico. Queria dizer que o corpo deve ser 
includo em qualquer relacionamento completo com o nosso eu. Um dos aspectos da perda de relacionamento ou afinidade 
do homem moderno com o seu eu  que o seu corpo se encontra colhido na diviso sujeito-objeto: ele  propenso a olhar o 
seu corpo puramente como um objeto, algo externo, a ser estudado quimicamente, a ser calculado e controlado. O corpo  
visto como o resto da Natureza, no sentido newtoniano, algo sobre que se deve ganhar poder. Suposies desta espcie, 
por exemplo, esto presentes nos mtodos de Kinsey: as pessoas podem ser consideradas objetos sexuais e o sexo pode 
ser estudado estatisticamente, separado da sua significao interpessoal e subjetiva. As pessoas que recorrem  
psicoterapia com essas atitudes revelam, geralmente, um considervel isolamento do corpo. Nietzsche foi mais sbio do 
que muitos dos nossos modernos pressupostos cientficos. O corpo  um aspecto do eu;  uma forma da nossa 
intercomunicao com o mundo e, como tal,  uma parte integrante do auto-relacionamento. 
UMA CINCIA DO HOMEM deve ter como seu fulcro a caracterstica nica que distingue o homem, a saber, a sua 
capacidade 
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para relacionar-se com o prprio eu como sujeito e objeto, simultaneamente. Perguntemo-nos, agora, como um tal quadro 
de referncia seria til como base  nossa compreenso e  pesquisa, na psicoterapia. 
Vemos imediatamente que o conceito sujeito-objeto d-nos uma orientao em nossa pesquisa sobre a origem e 
desenvolvimento dos procesos especiais, no ser humano, que levam aos problemas psicolgicos e emocionais. Por 
exemplo, sabemos que a capacidade do beb para usar linguagem e smbolos, a sua vulnerabilidade  neurose e o auto-
relacionamento, desenvolvem-se simultaneamente como diferentes aspectos do mesmo processo. Lawrence Kubie escreveu 
argutamente: 
O processo neurtico surge do desenvolvimento da linguagem na infncia, isto , com o desenvolvimento da capacidade de 
atuar e pensar e, em ltima instncia, de falar em smbolos. Os smbolos da neurose so paralelos aos smbolos da 
linguagem e dependem de muitas das mesmas e fundamentais capacidades humanas; e a distoro neurtica dessas funes 
simblicas ocorre em resultado de uma dicotomia entre processos conscientes e inconscientes que se iniciam cedo no 
desenvolvimento de cada beb humano. 
De fato, essa diviso entre conscincia e inconscincia ocorre, principalmente, porque a criana est bloqueada no 
desenvolvimento da sua capacidade para ver-se como sujeito e objeto. O que a criana pode comunicar a seus pais torna-se 
consciente e o que no pode comunicar (por causa da ansiedade ou medo de punio) fica bloqueado, reprimido, torna-se 
inconsciente. Foi por isso que Kierkegaard disse, corretamente: 
Quanto mais conscientizao, mais eu. 
Alm disso, este quadro fornece-nos uma perspectiva para aferir a neurose e a psicose. O bloqueio do auto-relacionamento 
 o que Freud chama represso e Sullivan dissociao. O grau em que o auto-relacionamento foi truncado  uma medida 
do desenvolvimento neurtico na pessoa. A falta completa de auto-relacionamento s se registra,  claro, na psicose. Os 
nossos problemas neurticos ocorrem, pois, em proporo a quanto fomos forados a abandonar da nossa capacidade para 
vermo-nos, ao mesmo tempo, como sujeitos e objetos. A liberdade psicolgica  atuar de acordo com o nosso prprio 
carter. 
Chegamos aqui a uma questo muito delicada, Em virtude da capacidade do homem para ver-se como se de fora, para 
relacionar-se com o seu eu como sujeito e objeto, ao mesmo tempo, ele pode agir contra si mesmo. Como escreveu Paul 
Tillich, na natureza, a ao segue-se ao ser: os gatos atuam de acordo com o ser gato; eles no agem contra a essncia de 
gato. Mas o homem pode agir contra a sua prpria natureza; por isso temos, em nossa linguagem, a categoria de inumano 
Desconfio de que grande parte do comportamento que  chamado trgico na experincia humana, grande parte do que Freud 
tinha em mente ao formular o instinto de morte, deve ser entendido  luz dessa potencialidade do homem para agir contra 
o eu. 
Estas consideraes indicam-nos por que uma cincia adequada do homem tambm no pode excluir a tica. Pois as aes 
de um ser humano vivo e autoconsciente nunca so automticas e envolvem, pelo contrrio, uma certa avaliao das 
conseqncias, alguma potencialidade para o Bem ou o Mal. Repetimos, em proporo  ausncia de auto-relacionamento  
digamos, quando a pessoa est sob drogas, hipnotizada ou sofre de grave neurose ou psicose  essa avaliao das 
conseqncias  proporcionalmente menor. A tica decorre da capacidade do homem para transcender a situao imediata, 
concreta, e encarar os seus atos  luz do bem-estar ou da destruio a longo prazo dele prprio e da comunidade. 
As linhas gerais de uma cincia do homem que sugerimos trataro do homem como o criador de smbolos, o raciocinador, o 
mamfero histrico que pode participar em sua comunidade e possui potencialidade de liberdade e ao tica. A elaborao 
dessa cincia no exigir um pensamento menos rigoroso e uma disciplina menos devotada do que as iniciativas da cincia 
experimental e natural, em sua melhor forma; contudo, situar a iniciativa cientfica num contexto mais amplo. Talvez seja 
ento possvel estudar de novo o homem cientificamente e, apesar disso, v-lo como um todo. 
